A menina sempre teve a sensação de ouvir vozes dentro dela. Não se sentia louca, mas tinha uns surtinhos de vez em quando já que se sentia um peixe fora d'água em alguns momentos. Graças a Deus havia nascido com uma grande habilidade de adaptação. Parecia uma camaleoa: adaptava-se muito facilmente a novos ambientes, países, casas novas, pessoas diferentes (era frequentemente chamada de "eclética" e "cabeça aberta"). Esta naturalidade com que via e vivia a vida era maravilhosa em vários aspectos, mas sofria fortemente com algo que nenhum ser é capaz de escapar: a rotina. O trabalho. As pessoas não conseguem escapar, mas parecem viver bem com isso. Ela não. Ela sentia certo tormento, até certa frustração. O ir e vir todo dia do mesmo endereço, manusear os mesmos instrumentos, fazer as mesmas coisas e até ter que falar as mesmas falas (urgh!!) era algo que esmagava sua alma. Sim, a alma pra ela nada era de etérea. Era tão física quanto o corpo. Este dia-a-dia parecido com todos a fazia sentir seu cérebro se enrugar dentro dela, como uma uva quando ressecada ou dedos que vão gelando dentro da piscina fria por horas a fio. Resignou-se ao fato de "não tem jeito, a vida é assim, tenho que fazer parte deste mundinho terreno, mas preciso extravazar de alguma forma" e recordou-se da enorme satisfação que sentia quando passava horas no seu quarto escrevendo suas estórias em seus diários. Animada, voltou a escrever. Ou melhor, começou a digitar. Como estamos na era da tecnologia, percebeu que produziria mais se se rendesse ao tecladinho que encontrava todo dia no trabalho. Passou a ver as teclinhas com mais carinho e cada uma delas passou a representar uma alegria ao apertá-las suavemente e vê-las contar suas ideias, devaneios, fatos reais e idealismos. A ação de escrever a ajudou em vários aspectos: a fuga da rotina, o alívio imediato que sentia em suas dores de cabeça ao deixar as palavras rolarem soltas pelas teclas, recebeu comentários de amigos que há tempos não tinha contato, lembrou de fatos engraçados da sua infância (recordar é viver!!) e ganhou de presente uma nova casa. O endereço da casa nova é http://bistromental.wordpress.com/ e o acesso é bem simples. Reto e direto. Basta clicar em cima que "tã-dã!!": a casa está de portas abertas para cada visitante! Sejam bem-vindos e fiquem à vontade! Afinal de contas: Mi casa, tu casa! :o)
Wednesday, June 2, 2010
Monday, May 31, 2010
Save the best for last
The Dog had already turned into an excuse for both to still be together. They didn’t want the puppie to be a “dog of 2 owners” who lived under the same roof. The difficulty in making such a decision was practically the same that parents who are facing a divorce face: the kids end up as being an excue, remorse, attachment, memories of something that was meant to last forever and is now... over. Then they went back to the "why?" phase of any childhood. Why had it ended? Why had she become boring? Why wasn't him funny anymore? Why is the TV the only voice carrier in the house? Why do I spend more time in the office now than I did before? Why have I started to spend more on things I don't really want? Why does it bother me the way he eats? Why do I feel upset if she remains silent? Questions that came, but never went. Questions that just danced right before their eyes as little imaginary leprechauns that would stick out their tongues as if making of fun them for not being able to find the answers. Then came a time when they wouldn't even think about any question anymore.
It was right then that the Dog understood what it was like to feel something much stronger than instinct. He felt guilt. Once felt, one cannot undo this feeling, nort act as if nothing is going on. Since that day, the small animal would go around with his ears in standing position, his tail would swing as slowly as an old fan in a very hot summer's day, his eyes would always be suspicious and sad, but he still remained loyal to both his owners. He would even feel dizzy from the little battle of power that they would set over the dog: one would offer him delicious food and the other offered him hours of endless caress on his belly. Amidst such confusion, the Dog would spin around himself in the middle of the living room strongly desiring for a third person to suddenly appear and settle the impasse.
One day, the couple decided to sit down and talk things over. Face to face. Eye to eye. They wished for a place with less memories and "pressures" of their house, a place without details of the both of them hanging everywhere, without walls who would whisper their stories and histories from one room to the other and without a floor that kept the heat from so many slow-dance steps and hurried sex on it.
Nor were they looking for a place without anything. Without any reference. Therefore they chose to go to the cafè where their first date had taken place. She had arrived first and chose to sit with her back to the lateral entrance so as to leave the lad with full view of the waiters coming in and out and be able to make his mannly manners as to order for them. She sat there today as well. He arrived a little later then and now. On the first date, alone. Now, with the Dog. Both males positioned themselves facing the female.
They chose the same scenario almost as a tentative to rescue a feeling already gone. They searched for sweet memories to cope with such a painful moment. It would feel very indifferent to end a beautiful relationship in a place that lacked... lacked everything. And "indifferent" was a characteristic that did not reflect them at all. Quite on the contrary: even when feeling apart, they remained close together tied by an invisible bow. There was such a warm complicity that would bring them to the dining table every evening so they would eat together and talk about their highs and lows of the day. They knew the gigantic arms that would hold them down on the bed every morning and would only let them get up after one had wished the other a "good morning". They could still lively smell the fresh breath of the voice that would blow them tips that one was anxious on the other side of the town and need the other's attention and care. Their guts would only calm down from the wonderful news of the day when these were told under the roof of 23, Dawn Street. Upon recalling such memories, they realised they had mistaken boredom for feeling, better yet, the end of it.
Silently, they smiled at one another for feeling so stupid and this was to become their latest complice moment. They understood that the smallest amount of memories that they wished to gather upon sitting on that cafè was, in fact, the necessary amount to remind them of how great they were together. Without much ado or nuisance due to the years spent together, they kept their smiles and just leaned their bodies forward allowing their lips to touch. It wasn't much of a kiss, but rather a shy "hello" or even an apology.
The Dog understood that instinct petrifies when in such a joyful state.
The eyes shut where the perfect hidding place for shame.
The smile was a banner with the saying "welcome back".
What was meant to be the last turned out to be the first kiss.Os últimos serão os primeiros
O Cachorro, na verdade, já tinha virado desculpa para ainda estarem juntos. Não queriam que o pequeno fosse "cachorro de dois donos" morando sob o mesmo teto. A dificuldade de tomarem tal decisão era, praticamente, a mesma que casais que se separam com filhos: eles viram desculpa, remorso, apego, lembranças de algo que era pra ser "pra sempre" e agora... havia acabado. Aí voltaram para a infância, na fase do "por que?". Por que havia acabado? Por que ela ficou chata? Por que ele já não era mais divertido? Por que a TV é a portadora de vozes aqui dentro de casa? Por que fico mais tempo no escritório agora do que antes? Por que passei a gastar mais com coisas que não uso? Por que me incomodo com o jeito que ele come? Por que me chateio se ela fica em silêncio? Perguntas que vinham, mas não iam. Ficavam ali dançando em frente aos seus olhos como pequenos duendes imaginários e serelepes que lhes esticavam a língua pra fora da boca como que em sinal de gozação por não acharem as respostas. Depois chegou a fase de nem pensarem mais nas perguntas.
Foi aí que o Cachorro entendeu o que era ter mais que instinto. Sentiu culpa. Uma vez percebida, não tinha como disfarçar, fingir que não sabia de nada. Desde este dia, o animalzinho vivia de orelha em pé, rabo pouco abanado como um ventilador velho e cansado no meio de um verão tão infernal que nem ele mesmo consegue rodar de tanto calor, olhos sempre desconfiados e melancólicos, mas permanecia fiel aos dois. Ficava até zonzo na patética disputa de poderes quando um o chamava pra comer e o outro, para dar carinho. Rodava em torno de si mesmo no meio da sala, torcendo para um terceiro indivíduo aparecer de sopetão e resolver o impasse. Num dia ia com um, com o outro, noutro.
Um dia resolveram sentar e conversar. Frente a frente. Olhos nos olhos. Queriam um lugar com menos recordações e "pressões" que a casa deles, sem os detalhes dos dois pendurados em cada canto, sem estórias e histórias sussurradas de uma parede para a outra, sem o calor que o chão havia guardado depois de tantos passos de danças lentas e transas apressadas.
Tampouco queriam um lugar sem nada. Sem referência. Assim, optaram pelo café onde deu-se o primeiro encontro marcado. Ela sentou de costas para a entrada lateral. Chegou primeiro e imaginou que seria ideal se sentar ali, deixando o rapaz com vista para as idas e vindas do garçom para que ele pudesse exercer seu papel de fazer os pedidos. Fez assim tanto no primeiro encontro, quanto hoje. Já ele, chegou sem o cachorro no primeiro dia, mas hoje o trouxe como companhia. Os dois machos posicionaram-se de frente pra fêmea.
Optaram pelo mesmo cenário como que para recuperar um sentimento já ido. Buscavam boas lembranças para enfrentar um momento tão doído. Seria muito frio terminar algo tão lindo num lugar tão desprovido de... de nada. E "frio" era uma característica irreal para eles. Mesmo quando afastados, permaneciam com um laço invisível que os mantinha ali, próximos. Havia uma cumplicidade morna que os trazia a cada noite para a mesa de jantar para comerem juntos e trocarem os altos e baixos do dia. Conheciam os braços gigantes que os seguravam na cama a cada manhã e só os deixava levantar depois de se abraçarem e se desejarem "bom dia". Ainda sentiam fortemente o hálito fresco da voz sem rosto que lhes soprava dicas de que o outro estava aflito no outro canto da cidade e precisava de atenção. Suas entranhas só se acalmavam das notícias maravilhosas e dos êxitos alcançados quando estes eram compartilhados sob o teto da casa 23 da Rua Alvorada. Ao irem recapitulando mentalmente tais lembranças, notaram que haviam confundido tédio com sentimento, ou melhor, com o fim dele.
Sorriram em silêncio um para o outro em mais uma cumplicidade por sentirem-se duplamente estúpidos. Perceberam que o mínimo de lembranças que queriam recuperar ao sentarem no café era, na verdade, o mínimo que precisavam para se dar conta do máximo que eram juntos. Sem muita frescura ou dificuldade, devido aos anos passados juntos, simplesmente mantiveram o sorriso, inclinaram-se para a frente e, ainda sorrindo, encostaram seus lábios. Não era muito um beijo, mas muito mais um "oi" e até um pedido de desculpa.
O Cachorro entendeu que instinto se petrifica quando em estado de alegria.
Os olhos fechados eram o esconderijo perfeito para a vergonha.
O sorriso era uma faixa esticada com o dizer "bem-vindo de volta".
O que era para ser o último beijo, virou o primeiro.
Thursday, May 27, 2010
Meu primeiro coração partido (e remendado)
Eu tinha por volta de quatro anos quando me apaixonei pela primeira vez. Primeira mesmo pode até não ter sido, mas certamente foi a mais arrebatadora. Havia o Gustavo da minha classe no Objetivo, mas ele era apenas um flerte, uma diversão pras horas na escola... Afinal de contas, está no DNA de meninas gostar de caras mais velhos. Deve ter sido este o motivo principal da minha total queda pelo Fabrício. Não sei precisar agora, mas imagino que ele fosse, pelo menos, 8 anos mais velho que eu. Eu ainda morava em Brasília, na superquadra “SQS 202”. Os detalhes de como esta paixão acendeu-se dentro de mim, não me lembro bem, hei de confessar, mas lembro (pasmem!) dos sonhos (devaneios, no caso...) acordada, do coração acelerar ao vê-lo, da cumplicidade já escancarada dos meus irmãos comigo e da total sinceridade de uma criança: todos da quadra sabiam. Até ele.
Eis que meu irmão um dia me avisa que está indo na casa do Fabrício pra uma “festinha”... Quase fui a primeira criança a morrer, literalmente, de vontade de ir junto. Sabia que tal festinha não tinha n-a-d-a a ver comigo. Irmão mais velho sofre e meu não fugiu à regra: quando viu minha carinha desolada no canto da sala, sentiu um misto de saco cheio e pena. Carregou-me junto com a desculpinha que eu queria levar o LP da novela que era hit do momento. Foram os minutinhos mais longos dos meus quatro anos. Imagino que aquilo fosse instinto já que “paixão”, “nervosinho”, “aflição” e “borboletas no estômago” eram termos e sensações ainda totalmente desconhecidas pra mim. Mas... FUI! Fui FE-LIZ!!! Lembro-me de estar de mão dada com meu irmão até no elevador: tamanho era o pavor de soltar e me ver sozinha no elevador que daria na porta do tal.
Quando saímos, a porta da casa estava aberta, musiquinha lenta rolando (típico da idade!), luzes semi-apagadas (típico de novo!) e pessoas... Mas meus olhos só viram uma pessoa. Ele. Mirei direto e reto. Mal sabia que o alvo não era ele, mas sim meu coração. Ali senti que coração era feito de matéria. Mais precisamente de vidro. Daqueles Duralex ainda por cima que quebram em mil pedacinhos. Estraçalhou-se e ouvi o farfalhar dos cacos descendo em cascata até meu estômago onde eles aniquilariam todas as estúpidas borboletas que minutos antes voavam ali, inocentemente felizes. Ele tinha seu braço em volta de uma sombra de cabelos compridos. Não conseguia ver nada direito. Com a vista embaçada, só sentia os vidrinhos me arranhando por dentro. Catatônica, mal percebi que ele veio em minha direção imediatamente ao ver-me. Um perfeito gentleman, ajoelhou-se, tirou o LP da minha mão, me sorriu e perguntou: “quer dançar comigo?”. Como que num passe de mágica, ou melhor, como um botão de rewind, meus caquinhos se juntaram rapidamente lá do estômago, deram as mãos e fizeram a subida de volta à caixa torácica, formando de novo um coração. As borboletas, nada rancorosas, voltaram a dançar, só que desta vez, acompanhando o ritmo dos meus pés. Nem sei se sorri ou se só obedeci, mas lembro da minha cabeça jogada (quase como uma morta) no ombro esquerdo dele. A música pareceu durar horas. Tampouco me lembro do caminho de volta pra casa e nem como ou se consegui adormecer depois de tanta emoção em apenas uns minutos.
Só sei que, caso mais Fabrícios existissem por aí, mais rápida seria a cura pros corações partidos!
Eis que meu irmão um dia me avisa que está indo na casa do Fabrício pra uma “festinha”... Quase fui a primeira criança a morrer, literalmente, de vontade de ir junto. Sabia que tal festinha não tinha n-a-d-a a ver comigo. Irmão mais velho sofre e meu não fugiu à regra: quando viu minha carinha desolada no canto da sala, sentiu um misto de saco cheio e pena. Carregou-me junto com a desculpinha que eu queria levar o LP da novela que era hit do momento. Foram os minutinhos mais longos dos meus quatro anos. Imagino que aquilo fosse instinto já que “paixão”, “nervosinho”, “aflição” e “borboletas no estômago” eram termos e sensações ainda totalmente desconhecidas pra mim. Mas... FUI! Fui FE-LIZ!!! Lembro-me de estar de mão dada com meu irmão até no elevador: tamanho era o pavor de soltar e me ver sozinha no elevador que daria na porta do tal.
Quando saímos, a porta da casa estava aberta, musiquinha lenta rolando (típico da idade!), luzes semi-apagadas (típico de novo!) e pessoas... Mas meus olhos só viram uma pessoa. Ele. Mirei direto e reto. Mal sabia que o alvo não era ele, mas sim meu coração. Ali senti que coração era feito de matéria. Mais precisamente de vidro. Daqueles Duralex ainda por cima que quebram em mil pedacinhos. Estraçalhou-se e ouvi o farfalhar dos cacos descendo em cascata até meu estômago onde eles aniquilariam todas as estúpidas borboletas que minutos antes voavam ali, inocentemente felizes. Ele tinha seu braço em volta de uma sombra de cabelos compridos. Não conseguia ver nada direito. Com a vista embaçada, só sentia os vidrinhos me arranhando por dentro. Catatônica, mal percebi que ele veio em minha direção imediatamente ao ver-me. Um perfeito gentleman, ajoelhou-se, tirou o LP da minha mão, me sorriu e perguntou: “quer dançar comigo?”. Como que num passe de mágica, ou melhor, como um botão de rewind, meus caquinhos se juntaram rapidamente lá do estômago, deram as mãos e fizeram a subida de volta à caixa torácica, formando de novo um coração. As borboletas, nada rancorosas, voltaram a dançar, só que desta vez, acompanhando o ritmo dos meus pés. Nem sei se sorri ou se só obedeci, mas lembro da minha cabeça jogada (quase como uma morta) no ombro esquerdo dele. A música pareceu durar horas. Tampouco me lembro do caminho de volta pra casa e nem como ou se consegui adormecer depois de tanta emoção em apenas uns minutos.
Só sei que, caso mais Fabrícios existissem por aí, mais rápida seria a cura pros corações partidos!
Wednesday, May 26, 2010
A casa dos espíritos
O Sr. Longdale mal pôde acreditar em seus próprios olhos quando a avistou. Era perfeita. Afastada de tudo e de todos, mas perto o suficiente da natureza para ouvir o riacho que corria ali por detrás dela (ou seria pela lateral?). Tinha aspecto impecável para um homem que adoraria estampar sua própria marca na casa em que seria seu novo lar-doce-lar. Filho de marceneiro, tinha conhecimentos suficientes para deixar o local como novo ou, pelo menos, com toques e requintes típicos de um Longdale! Seria a visão real ou uma brincadeira de mau gosto vinda de seus maiores sonhos ocultos e reprimidos? Não sabia responder, dada a distância em que se encontrava de seu objeto de desejo. Resolveu aproximar-se. Foi dirigindo lentamente, de modo que a casa ia, na mesma velocidade, ficando maior a seus olhos. Com estes bem abertos e hipnotizados, começou a rir sozinho, levando uma mão à boca, pousando a outra sobre o volante e deixando o pé acelerando mecanicamente. Ao estacionar, contemplou-a de dentro do carro por alguns instantes, como se para pegar fôlego suficiente e reunir força para sair. Abriu a porta com determinação, mas sem fazer nenhum ruído. Não queria assustar a casa. Se ela fugisse e ele a perdesse, jamais se perdoaria. Praticamente engatinhando, chegou à soleira. Aí desmoronou e agarrou os degraus com os braços. "É real!! É real!" sussurrou entre gritos abafados. Vai que alguém mais o ouvisse e sorrateiramente surrupiasse a casa?? O pensamento era tão doloroso que o afastou rapidamente. Decidiu levantar-se e sentiu, tinha certeza, a mesmíssima sensação de propriedade e autonomia que Moisés sentira ao ser o portador oficial dos 10 Mandamentos. Deixou escapar um certo palavrão por não ter, ali de imediato, uma daquelas placas de "Vendida" para já fincá-la, demarcando o seu território. Foi quando quase sofreu um ataque cardíaco indesejado ao escutar a porta abrir atrás de si. Recordou-se do tamanho da sua espinha dorsal ao senti-la inteira latejar nas suas costas. Sentiu um vulcão em suas entranhas e virou-se como que em câmera lenta, percebendo uma gota fria de suor escorrer da têmpora esquerda até sua orelha e sentindo um punho fechar-se, caso precisasse deferir o golpe. Foi quando avistou uma senhorinha de cabelos feitos de algodão, bochechas rosadas e profundos olhos acinzentados. Certamente haviam sido bem azuis na juventude, mas a idade os deixara cinzas, porém ainda muito vivos e alegres. Vestindo um macacão de jardinagem e luvas cheias de terra, a Sra. Memphis lhe sorriu com certa expressão de dúvida que deixou os pequeninos olhos ainda mais cinzentos.
- O senhor está bem, Sr. Longdale?, perguntou com sua voz macia.
A nuvem que ocupara seus pensamentos foi desaparecendo a cada piscada apressada que ele dava e os sons vindos de toda parte rapidamente tomaram conta de seus tímpanos. Sacudiu a cabeça como se para acordar de um pesadelo, limpou o suor e afirmou que sim, que era apenas o calor que o havia deixado zonzo. Ela lhe sorriu e ofereceu um copo de limonada gelada. Ele recusou, ainda com cara de quem está perdido no meio de um labirinto. Ela então perguntou se havia alguma correspondência para ela ou seus inquilinos. Babulciou que sim, como se as palavras tropeçassem em sua língua, saindo entrecortadas.
- Me desculpe... esqueci a bolsa com as cartas no carro. Já volto.
O medo o possuíra de tal forma que mal conseguiu chegar no carro. Quem era aquela senhora que o conhecia pelo nome? Como poderia alguém que ele nunca vira antes tratá-lo tão amavelmente? O pavor o fez correr até o carro, dar partida na ignição e deixar os pneus cantarem livremente, celebrando sua saída. Perplexa, a Sra. Memphis observou o carro sumir pela estrada reta, no campo aberto. Ainda não sabia que não receberia as cartas daquele dia e de nenhum outro por vir.
- O senhor está bem, Sr. Longdale?, perguntou com sua voz macia.
A nuvem que ocupara seus pensamentos foi desaparecendo a cada piscada apressada que ele dava e os sons vindos de toda parte rapidamente tomaram conta de seus tímpanos. Sacudiu a cabeça como se para acordar de um pesadelo, limpou o suor e afirmou que sim, que era apenas o calor que o havia deixado zonzo. Ela lhe sorriu e ofereceu um copo de limonada gelada. Ele recusou, ainda com cara de quem está perdido no meio de um labirinto. Ela então perguntou se havia alguma correspondência para ela ou seus inquilinos. Babulciou que sim, como se as palavras tropeçassem em sua língua, saindo entrecortadas.
- Me desculpe... esqueci a bolsa com as cartas no carro. Já volto.
O medo o possuíra de tal forma que mal conseguiu chegar no carro. Quem era aquela senhora que o conhecia pelo nome? Como poderia alguém que ele nunca vira antes tratá-lo tão amavelmente? O pavor o fez correr até o carro, dar partida na ignição e deixar os pneus cantarem livremente, celebrando sua saída. Perplexa, a Sra. Memphis observou o carro sumir pela estrada reta, no campo aberto. Ainda não sabia que não receberia as cartas daquele dia e de nenhum outro por vir.
Adeus ano velho
Era noite de Ano Novo e todos se mexiam rapidamente para lugares animados, restaurantes com vista pro mar, festas caríssimas pagas com 11 meses de antecedência, casa de amigos e até à praia mesmo, propriamente dita, para pisar na areia e pular as famosas 7 ondinhas. Os animados de alma, mas sem muita disposição física, resolveram ficar em casa com seus bichos e vizinhos para trocar os desejos de coisas maravilhosas e os costumeiros abraços gostosos de virada de ano.
Menos eles. Os três se dirigiram de forma quase proibida para o alto de um pedra que, segundo suas crenças, só eles conheciam. Levaram cobertores macios para afofar o duro da pedra nas costas, uma champagne barata só para estourar e se lambusarem de espuma e risadas e outras três garrafas da bebida já de qualidade superior para beberem. Ah, sim, uma garrafa para cada! O ano era quase novo, mas os hábitos antigos são difíceis de serem largados.
O rapaz levou seu cigarrinho da sorte para acender no sétimo minuto do 1º dia do ano. Ele havia pintado um trevo quatro folhas no fininho na altura de onde seria, de acordo com seu cálculo, sua sétima baforada. Para ter mais um "sete", o rapaz daria 3 abraços em cada amiga e um nele próprio na hora em que os fogos cessassem.
O rapaz levou seu cigarrinho da sorte para acender no sétimo minuto do 1º dia do ano. Ele havia pintado um trevo quatro folhas no fininho na altura de onde seria, de acordo com seu cálculo, sua sétima baforada. Para ter mais um "sete", o rapaz daria 3 abraços em cada amiga e um nele próprio na hora em que os fogos cessassem.
A mais nova dos três levou os óculos que nunca usava (simplesmente por não gostar, apesar de saber que lhes caíam muito bem) para não perder nenhum detalhe dos fogos de artifício. Seria sua primeira vez a vê-los assim, ao ar livre, com o céu como pano de fundo e a altura do penhasco como companheira invisível. Todas as outras vezes havia visto os estouros pela televisão, ao lado da avó. Para ela, mais do que nunca, um ano bem novo estava virando a esquina. Levou também bolachas esmigalhadas dentro de uma caixinha só para soltá-las ao vento quando a gritaria de "feliz ano noooovooooo!" começasse. Eram as favoritas da avó.
A terceira só levou seu sorriso mais acolhedor e honesto que lhe era costumeiro. Isso bastava pros três.
Sentaram-se juntos, finalmente, após argumentarem sobre qual lugar seria o ideal e com a melhor visão pros fogos. Deram-se as mãos, mas cada perna parecia ter sua própria personalidade: duas estavam cruzadas entre si, uma estava esticada pra frente e sua companheira mantinha o joelho dobrado pra cima e as outras duas estavam jogadas em cima do joelho alheio.
Seis olhos fixaram-se no horizonte, ansiosos pelo espetáculo que estava por vir. Para dois destes olhos, o espetáculo era a emoção de novas perspectivas vindas de um simples trocar de minuto. 23:59h: vida velha e chata. 00h: lindas perspectivas.
Para o outro par de olhos: a grandeza da natureza seria logo iluminada por inúmeras luzes artificiais, mas que mais se pareciam com estrelas cadentes, explodindo tão próximo dali. Mesmo de óculos, espremeu os olhos para enxergar mais.
O terceiro parzinho de olhos estava imóvel, sem piscar. Ao contrário do corpo do qual fazia parte: a moça estava irrequieta, mexendo suas pernas, apoiando todo o peso do corpo nos cotovelos enquanto girava o pescoço para cima, como se em busca da posição perfeita. Só parou de se mexer quando observou, sozinha, uma real estrela cadente. Rapidamente fez seu pedido e guardou tal episódio, satisfeita, para si. Acreditou que aquilo era o presente de Natal que não havia ganho e esboçou um sorriso peralta de canto de boca como se em cumplicidade com os céus. “Obrigada”, sussurrou sua alma dentro de si bem na hora que começaram os estouros e os amigos a puxaram pelas mãos para se levantar.
A champagne barata rendeu boas manchas molhadas nas camisas dos três, cabelos com mechas grudadas e franjas levemente grudadas na testa. As outras garrafas garantiram as boas risadas até o caminho de casa, enquanto cantavam em alto e bom tom, repetidamente: “adeeeeus ano velho, feliz aaaaano nooooovo, que tudo se realiiiiiiiiiize no aaaaano que vai nasceeeeeeer... muito dinheiro no bolso, saúde pra DAAAAAR e vendeeeeer!”
Monday, May 24, 2010
Desafio: quantas músicas têm aí?
Quem nunca se sentiu um estranho no ninho? Não se percebeu numa festa estranha com gente esquisita, não se sentindo muito legal? E quando sabe certinho que a porra da mosca pousa só na sua sopa?? Tal certeza gera o efeito de querer ter um espírito de porco, ser um cabeça-dinossauro para descontar a raivinha... De ser como um louco mesmo, batendo o pé mais do que o corpo poderia. Ou até de sair chorando pelo campo querendo que nesta noite, não... E quando nos sentimos absolutamente únicos por termos descoberto a fórmula do amor só pra ver depois que, na verdade, a vida não presta? Naqueles dias sim, dias não, quando você sobrevivia sem um arranhão... Quem de nós dois já não teve escolha e participou do jogo, sem conseguir dizer se era bom ou mau? A vontade de querer ter alguém com quem conversar, alguém que depois não usasse o que você disse contra você mesmo. Ou quem nunca se viu na pele de um garçom, numa mesa de bar, cansado de escutar centenas de casos de amor, mas desejando que sentissem com você que seu caso não era simplesmente mais um, muito menos banal. Quem não se sentiu como um sapato velho, dono de um coração pirata que levava tudo pela frente, mas com uma alma que adivinhava o preço que cobrariam da gente? Quem nunca teve seus olhos sorrirem e o coração bater feliz sem saber o porquê? Depois vinha a sensação de, por favor, “não faça nada por mim” de tão estranho que nos sentíamos já que a tal dae Alice não escreveu aquela carta de amor. Ah, a filha da puta! Aqui era nítido que qualquer palavra nada mais era que uma mera espuma ao vento, pronta pra se derreter. Por outro lado, nossos olhares dariam uma festa na hora em que nossos amores chegassem. Quando nem precisávamos que nos dessem motivo pra ir embora, pois mal havíamos chegado, nos sentindo o descobridor dos sete mares, querendo ficar bem à vontade. Provavelmente depois de tamanha entrada triunfal, a saída teve que ser à francesa... E qual homem nunca quis ser rei pra dama largar o valete e ficar com ele? Ah, e os momentos de solidão, de incompreensão, de exceção só porque você usava óculos ou já não tinha mais dedos pra contar de quantos barrancos despencou ou quantas pedras te atiraram ou quantas atirou? Os momentos de juras pra você mesmo de que o outro pode chorar, mas você não vai voltar e nem ele vai te convencer, afinal de contas, você procura por independência e acredita na distância entre vocês. O fato é que não existem receitas, muito menos 50 delas, para aprender a viver como um astronauta de mármore, sem nenhum de nós. Mas não importa o quão diferente, único ou exceção você tenha se sentido. Não importa porque simplesmente sempre haverá muito amor para recomeçar. A cada vez e sempre. Mais uma vez. Como se todo dia fosse um dia de domingo.
Subscribe to:
Comments (Atom)






