Monday, May 31, 2010

Save the best for last

The Dog had already turned into an excuse for both to still be together. They didn’t want the puppie to be a “dog of 2 owners” who lived under the same roof. The difficulty in making such a decision was practically the same that parents who are facing a divorce face: the kids end up as being an excue, remorse, attachment, memories of something that was meant to last forever and is now... over. Then they went back to the "why?" phase of any childhood. Why had it ended? Why had she become boring? Why wasn't him funny anymore? Why is the TV the only voice carrier in the house? Why do I spend more time in the office now than I did before? Why have I started to spend more on things I don't really want? Why does it bother me the way he eats? Why do I feel upset if she remains silent? Questions that came, but never went. Questions that just danced right before their eyes as little imaginary leprechauns that would stick out their tongues as if making of fun them for not being able to find the answers. Then came a time when they wouldn't even think about any question anymore.
It was right then that the Dog understood what it was like to feel something much stronger than instinct. He felt guilt. Once felt, one cannot undo this feeling, nort act as if nothing is going on. Since that day, the small animal would go around with his ears in standing position, his tail would swing as slowly as an old fan in a very hot summer's day, his eyes would always be suspicious and sad, but he still remained loyal to both his owners. He would even feel dizzy from the little battle of power that they would set over the dog: one would offer him delicious food and the other offered him hours of endless caress on his belly. Amidst such confusion, the Dog would spin around himself in the middle of the living room strongly desiring for a third person to suddenly appear and settle the impasse.

One day, the couple decided to sit down and talk things over. Face to face. Eye to eye. They wished for a place with less memories and "pressures" of their house, a place without details of the both of them hanging everywhere, without walls who would whisper their stories and histories from one room to the other and without a floor that kept the heat from so many slow-dance steps and hurried sex on it.
Nor were they looking for a place without anything. Without any reference. Therefore they chose to go to the cafè where their first date had taken place. She had arrived first and chose to sit with her back to the lateral entrance so as to leave the lad with full view of the waiters coming in and out and be able to make his mannly manners as to order for them. She sat there today as well. He arrived a little later then and now. On the first date, alone. Now, with the Dog. Both males positioned themselves facing the female.

They chose the same scenario almost as a tentative to rescue a feeling already gone. They searched for sweet memories to cope with such a painful moment. It would feel very indifferent to end a beautiful relationship in a place that lacked... lacked everything. And "indifferent" was a characteristic that did not reflect them at all. Quite on the contrary: even when feeling apart, they remained close together tied by an invisible bow. There was such a warm complicity that would bring them to the dining table every evening so they would eat together and talk about their highs and lows of the day. They knew the gigantic arms that would hold them down on the bed every morning and would only let them get up after one had wished the other a "good morning". They could still lively smell the fresh breath of the voice that would blow them tips that one was anxious on the other side of the town and need the other's attention and care. Their guts would only calm down from the wonderful news of the day when these were told under the roof of 23, Dawn Street. Upon recalling such memories, they realised they had mistaken boredom for feeling, better yet, the end of it.

Silently, they smiled at one another for feeling so stupid and this was to become their latest complice moment. They understood that the smallest amount of memories that they wished to gather upon sitting on that cafè was, in fact, the necessary amount to remind them of how great they were together. Without much ado or nuisance due to the years spent together, they kept their smiles and just leaned their bodies forward allowing their lips to touch. It wasn't much of a kiss, but rather a shy "hello" or even an apology.
The Dog understood that instinct petrifies when in such a joyful state.
The eyes shut where the perfect hidding place for shame.
The smile was a banner with the saying "welcome back".
What was meant to be the last turned out to be the first kiss.


Os últimos serão os primeiros

O Cachorro, na verdade, já tinha virado desculpa para ainda estarem juntos. Não queriam que o pequeno fosse "cachorro de dois donos" morando sob o mesmo teto. A dificuldade de tomarem tal decisão era, praticamente, a mesma que casais que se separam com filhos: eles viram desculpa, remorso, apego, lembranças de algo que era pra ser "pra sempre" e agora... havia acabado. Aí voltaram para a infância, na fase do "por que?". Por que havia acabado? Por que ela ficou chata? Por que ele já não era mais divertido? Por que a TV é a portadora de vozes aqui dentro de casa? Por que fico mais tempo no escritório agora do que antes? Por que passei a gastar mais com coisas que não uso? Por que me incomodo com o jeito que ele come? Por que me chateio se ela fica em silêncio? Perguntas que vinham, mas não iam. Ficavam ali dançando em frente aos seus olhos como pequenos duendes imaginários e serelepes que lhes esticavam a língua pra fora da boca como que em sinal de gozação por não acharem as respostas. Depois chegou a fase de nem pensarem mais nas perguntas.
Foi aí que o Cachorro entendeu o que era ter mais que instinto. Sentiu culpa. Uma vez percebida, não tinha como disfarçar, fingir que não sabia de nada. Desde este dia, o animalzinho vivia de orelha em pé, rabo pouco abanado como um ventilador velho e cansado no meio de um verão tão infernal que nem ele mesmo consegue rodar de tanto calor, olhos sempre desconfiados e melancólicos, mas permanecia fiel aos dois. Ficava até zonzo na patética disputa de poderes quando um o chamava pra comer e o outro, para dar carinho. Rodava em torno de si mesmo no meio da sala, torcendo para um terceiro indivíduo aparecer de sopetão e resolver o impasse. Num dia ia com um, com o outro, noutro.

Um dia resolveram sentar e conversar. Frente a frente. Olhos nos olhos. Queriam um lugar com menos recordações e "pressões" que a casa deles, sem os detalhes dos dois pendurados em cada canto, sem estórias e histórias sussurradas de uma parede para a outra, sem o calor que o chão havia guardado depois de tantos passos de danças lentas e transas apressadas.
Tampouco queriam um lugar sem nada. Sem referência. Assim, optaram pelo café onde deu-se o primeiro encontro marcado. Ela sentou de costas para a entrada lateral. Chegou primeiro e imaginou que seria ideal se sentar ali, deixando o rapaz com vista para as idas e vindas do garçom para que ele pudesse exercer seu papel de fazer os pedidos. Fez assim tanto no primeiro encontro, quanto hoje. Já ele, chegou sem o cachorro no primeiro dia, mas hoje o trouxe como companhia. Os dois machos posicionaram-se de frente pra fêmea.

Optaram pelo mesmo cenário como que para recuperar um sentimento já ido. Buscavam boas lembranças para enfrentar um momento tão doído. Seria muito frio terminar algo tão lindo num lugar tão desprovido de... de nada. E "frio" era uma característica irreal para eles. Mesmo quando afastados, permaneciam com um laço invisível que os mantinha ali, próximos. Havia uma cumplicidade morna que os trazia a cada noite para a mesa de jantar para comerem juntos e trocarem os altos e baixos do dia. Conheciam os braços gigantes que os seguravam na cama a cada manhã e só os deixava levantar depois de se abraçarem e se  desejarem "bom dia". Ainda sentiam fortemente o hálito fresco da voz sem rosto que lhes soprava dicas de que o outro estava aflito no outro canto da cidade e precisava de atenção. Suas entranhas só se acalmavam das notícias maravilhosas e dos êxitos alcançados quando estes eram compartilhados sob o teto da casa 23 da Rua Alvorada. Ao irem recapitulando mentalmente tais lembranças, notaram que haviam confundido tédio com sentimento, ou melhor, com o fim dele.

Sorriram em silêncio um para o outro em mais uma cumplicidade por sentirem-se duplamente  estúpidos. Perceberam que o mínimo de lembranças que queriam recuperar ao sentarem no café era, na verdade, o mínimo que precisavam para se dar conta do máximo que eram juntos. Sem muita frescura ou dificuldade, devido aos anos passados juntos, simplesmente mantiveram o sorriso, inclinaram-se para a frente e, ainda sorrindo, encostaram seus lábios. Não era muito um beijo, mas muito mais um "oi" e até um pedido de desculpa.
O Cachorro entendeu que instinto se petrifica quando em estado de alegria.
Os olhos fechados eram o esconderijo perfeito para a vergonha. 
O sorriso era uma faixa esticada com o dizer "bem-vindo de volta".
O que era para ser o último beijo, virou o primeiro.
  

Thursday, May 27, 2010

Meu primeiro coração partido (e remendado)

Eu tinha por volta de quatro anos quando me apaixonei pela primeira vez. Primeira mesmo pode até não ter sido, mas certamente foi a mais arrebatadora. Havia o Gustavo da minha classe no Objetivo, mas ele era apenas um flerte, uma diversão pras horas na escola... Afinal de contas, está no DNA de meninas gostar de caras mais velhos. Deve ter sido este o motivo principal da minha total queda pelo Fabrício. Não sei precisar agora, mas imagino que ele fosse, pelo menos, 8 anos mais velho que eu. Eu ainda morava em Brasília, na superquadra “SQS 202”. Os detalhes de como esta paixão acendeu-se dentro de mim, não me lembro bem, hei de confessar, mas lembro (pasmem!) dos sonhos (devaneios, no caso...) acordada, do coração acelerar ao vê-lo, da cumplicidade já escancarada dos meus irmãos comigo e da total sinceridade de uma criança: todos da quadra sabiam. Até ele.
Eis que meu irmão um dia me avisa que está indo na casa do Fabrício pra uma “festinha”... Quase fui a primeira criança a morrer, literalmente, de vontade de ir junto. Sabia que tal festinha não tinha n-a-d-a a ver comigo. Irmão mais velho sofre e meu não fugiu à regra: quando viu minha carinha desolada no canto da sala, sentiu um misto de saco cheio e pena. Carregou-me junto com a desculpinha que eu queria levar o LP da novela que era hit do momento. Foram os minutinhos mais longos dos meus quatro anos. Imagino que aquilo fosse instinto já que “paixão”, “nervosinho”, “aflição” e “borboletas no estômago” eram termos e sensações ainda totalmente desconhecidas pra mim. Mas... FUI! Fui FE-LIZ!!! Lembro-me de estar de mão dada com meu irmão até no elevador: tamanho era o pavor de soltar e me ver sozinha no elevador que daria na porta do tal.
Quando saímos, a porta da casa estava aberta, musiquinha lenta rolando (típico da idade!), luzes semi-apagadas (típico de novo!) e pessoas... Mas meus olhos só viram uma pessoa. Ele. Mirei direto e reto. Mal sabia que o alvo não era ele, mas sim meu coração. Ali senti que coração era feito de matéria. Mais precisamente de vidro. Daqueles Duralex ainda por cima que quebram em mil pedacinhos. Estraçalhou-se e ouvi o farfalhar dos cacos descendo em cascata até meu estômago onde eles aniquilariam todas as estúpidas borboletas que minutos antes voavam ali, inocentemente felizes. Ele tinha seu braço em volta de uma sombra de cabelos compridos. Não conseguia ver nada direito. Com a vista embaçada, só sentia os vidrinhos me arranhando por dentro. Catatônica, mal percebi que ele veio em minha direção imediatamente ao ver-me. Um perfeito gentleman, ajoelhou-se, tirou o LP da minha mão, me sorriu e perguntou: “quer dançar comigo?”. Como que num passe de mágica, ou melhor, como um botão de rewind, meus caquinhos se juntaram rapidamente lá do estômago, deram as mãos e fizeram a subida de volta à caixa torácica, formando de novo um coração. As borboletas, nada rancorosas, voltaram a dançar, só que desta vez, acompanhando o ritmo dos meus pés. Nem sei se sorri ou se só obedeci, mas lembro da minha cabeça jogada (quase como uma morta) no ombro esquerdo dele. A música pareceu durar horas. Tampouco me lembro do caminho de volta pra casa e nem como ou se consegui adormecer depois de tanta emoção em apenas uns minutos.
Só sei que, caso mais Fabrícios existissem por aí, mais rápida seria a cura pros corações partidos!

Wednesday, May 26, 2010

A casa dos espíritos



O Sr. Longdale mal pôde acreditar em seus próprios olhos quando a avistou. Era perfeita. Afastada de tudo e de todos, mas perto o suficiente da natureza para ouvir o riacho que corria ali por detrás dela (ou seria pela lateral?). Tinha aspecto impecável para um homem que adoraria estampar sua própria marca na casa em que seria seu novo lar-doce-lar. Filho de marceneiro, tinha conhecimentos suficientes para deixar o local como novo ou, pelo menos, com toques e requintes típicos de um Longdale! Seria a visão real ou uma brincadeira de mau gosto vinda de seus maiores sonhos ocultos e reprimidos? Não sabia responder, dada a distância em que se encontrava de seu objeto de desejo. Resolveu aproximar-se. Foi dirigindo lentamente, de modo que a casa ia, na mesma velocidade, ficando maior a seus olhos. Com estes bem abertos e hipnotizados, começou a rir sozinho, levando uma mão à boca, pousando a outra sobre o volante e deixando o pé acelerando mecanicamente. Ao estacionar, contemplou-a de dentro do carro por alguns instantes, como se para pegar fôlego suficiente e reunir força para sair. Abriu a porta com determinação, mas sem fazer nenhum ruído. Não queria assustar a casa. Se ela fugisse e ele a perdesse, jamais se perdoaria. Praticamente engatinhando, chegou à soleira. Aí desmoronou e agarrou os degraus com os braços. "É real!! É real!" sussurrou entre gritos abafados. Vai que alguém mais o ouvisse e sorrateiramente surrupiasse a casa?? O pensamento era tão doloroso que o afastou rapidamente. Decidiu levantar-se e sentiu, tinha certeza, a mesmíssima sensação de propriedade e autonomia que Moisés sentira ao ser o portador oficial dos 10 Mandamentos. Deixou escapar um certo palavrão por não ter, ali de imediato, uma daquelas placas de "Vendida" para já fincá-la, demarcando o seu território. Foi quando quase sofreu um ataque cardíaco indesejado ao escutar a porta abrir atrás de si. Recordou-se do tamanho da sua espinha dorsal ao senti-la inteira latejar nas suas costas. Sentiu um vulcão em suas entranhas e virou-se como que em câmera lenta, percebendo uma gota fria de suor escorrer da têmpora esquerda até sua orelha e sentindo um punho fechar-se, caso precisasse deferir o golpe. Foi quando avistou uma senhorinha de cabelos feitos de algodão, bochechas rosadas e profundos olhos acinzentados. Certamente haviam sido bem azuis na juventude, mas a idade os deixara cinzas, porém ainda muito vivos e alegres. Vestindo um macacão de jardinagem e luvas cheias de terra, a Sra. Memphis lhe sorriu com certa expressão de dúvida que deixou os pequeninos olhos ainda mais cinzentos.

- O senhor está bem, Sr. Longdale?, perguntou com sua voz macia.

A nuvem que ocupara seus pensamentos foi desaparecendo a cada piscada apressada que ele dava e os sons vindos de toda parte rapidamente tomaram conta de seus tímpanos. Sacudiu a cabeça como se para acordar de um pesadelo, limpou o suor e afirmou que sim, que era apenas o calor que o havia deixado zonzo. Ela lhe sorriu e ofereceu um copo de limonada gelada. Ele recusou, ainda com cara de quem está perdido no meio de um labirinto. Ela então perguntou se havia alguma correspondência para ela ou seus inquilinos. Babulciou que sim, como se as palavras tropeçassem em sua língua, saindo entrecortadas.

- Me desculpe... esqueci a bolsa com as cartas no carro. Já volto.

O medo o possuíra de tal forma que mal conseguiu chegar no carro. Quem era aquela senhora que o conhecia pelo nome? Como poderia alguém que ele nunca vira antes tratá-lo tão amavelmente? O pavor o fez correr até o carro, dar partida na ignição e deixar os pneus cantarem livremente, celebrando sua saída. Perplexa, a Sra. Memphis observou o carro sumir pela estrada reta, no campo aberto. Ainda não sabia que não receberia as cartas daquele dia e de nenhum outro por vir.

Adeus ano velho

Era noite de Ano Novo e todos se mexiam rapidamente para lugares animados, restaurantes com vista pro mar, festas caríssimas pagas com 11 meses de antecedência, casa de amigos e até à praia mesmo, propriamente dita, para pisar na areia e pular as famosas 7 ondinhas. Os animados de alma, mas sem muita disposição física, resolveram ficar em casa com seus bichos e vizinhos para trocar os desejos de coisas maravilhosas e os costumeiros abraços gostosos de virada de ano.

Menos eles. Os três se dirigiram de forma quase proibida para o alto de um pedra que, segundo suas crenças, só eles conheciam. Levaram cobertores macios para afofar o duro da pedra nas costas, uma champagne barata só para estourar e se lambusarem de espuma e risadas e outras três garrafas da bebida já de qualidade superior para beberem. Ah, sim, uma garrafa para cada! O ano era quase novo, mas os hábitos antigos são difíceis de serem largados.

O rapaz levou seu cigarrinho da sorte para acender no sétimo minuto do 1º dia do ano. Ele havia pintado um trevo quatro folhas no fininho na altura de onde seria, de acordo com seu cálculo, sua sétima baforada. Para ter mais um "sete", o rapaz daria 3 abraços em cada amiga e um nele próprio na hora em que os fogos cessassem.

A mais nova dos três levou os óculos que nunca usava (simplesmente por não gostar, apesar de saber que lhes caíam muito bem) para não perder nenhum detalhe dos fogos de artifício. Seria sua primeira vez a vê-los assim, ao ar livre, com o céu como pano de fundo e a altura do penhasco como companheira invisível. Todas as outras vezes havia visto os estouros pela televisão, ao lado da avó. Para ela, mais do que nunca, um ano bem novo estava virando a esquina. Levou também bolachas esmigalhadas dentro de uma caixinha só para soltá-las ao vento quando a gritaria de "feliz ano noooovooooo!" começasse. Eram as favoritas da avó.

A terceira só levou seu sorriso mais acolhedor e honesto que lhe era costumeiro. Isso bastava pros três.

Sentaram-se juntos, finalmente, após argumentarem sobre qual lugar seria o ideal e com a melhor visão pros fogos. Deram-se as mãos, mas cada perna parecia ter sua própria personalidade: duas estavam cruzadas entre si, uma estava esticada pra frente e sua companheira mantinha o joelho dobrado pra cima e as outras duas estavam jogadas em cima do joelho alheio.

Seis olhos fixaram-se no horizonte, ansiosos pelo espetáculo que estava por vir. Para dois destes olhos, o espetáculo era a emoção de novas perspectivas vindas de um simples trocar de minuto. 23:59h: vida velha e chata. 00h: lindas perspectivas.
Para o outro par de olhos: a grandeza da natureza seria logo iluminada por inúmeras luzes artificiais, mas que mais se pareciam com estrelas cadentes, explodindo tão próximo dali. Mesmo de óculos, espremeu os olhos para enxergar mais.
O terceiro parzinho de olhos estava imóvel, sem piscar. Ao contrário do corpo do qual fazia parte: a moça estava irrequieta, mexendo suas pernas, apoiando todo o peso do corpo nos cotovelos enquanto girava o pescoço para cima, como se em busca da posição perfeita. Só parou de se mexer quando observou, sozinha, uma real estrela cadente. Rapidamente fez seu pedido e guardou tal episódio, satisfeita, para si. Acreditou que aquilo era o presente de Natal que não havia ganho e esboçou um sorriso peralta de canto de boca como se em cumplicidade com os céus. “Obrigada”, sussurrou sua alma dentro de si bem na hora que começaram os estouros e os amigos a puxaram pelas mãos para se levantar.


A champagne barata rendeu boas manchas molhadas nas camisas dos três, cabelos com mechas grudadas e franjas levemente grudadas na testa. As outras garrafas garantiram as boas risadas até o caminho de casa, enquanto cantavam em alto e bom tom, repetidamente: “adeeeeus ano velho, feliz aaaaano nooooovo, que tudo se realiiiiiiiiiize no aaaaano que vai nasceeeeeeer... muito dinheiro no bolso, saúde pra DAAAAAR e vendeeeeer!”

Monday, May 24, 2010

Desafio: quantas músicas têm aí?


Quem nunca se sentiu um estranho no ninho? Não se percebeu numa festa estranha com gente esquisita, não se sentindo muito legal? E quando sabe certinho que a porra da mosca pousa só na sua sopa?? Tal certeza gera o efeito de querer ter um espírito de porco, ser um cabeça-dinossauro para descontar a raivinha... De ser como um louco mesmo, batendo o pé mais do que o corpo poderia. Ou até de sair chorando pelo campo querendo que nesta noite, não... E quando nos sentimos absolutamente únicos por termos descoberto a fórmula do amor só pra ver depois que, na verdade, a vida não presta? Naqueles dias sim, dias não, quando você sobrevivia sem um arranhão... Quem de nós dois já não teve escolha e participou do jogo, sem conseguir dizer se era bom ou mau? A vontade de querer ter alguém com quem conversar, alguém que depois não usasse o que você disse contra você mesmo. Ou quem nunca se viu na pele de um garçom, numa mesa de bar, cansado de escutar centenas de casos de amor, mas desejando que sentissem com você que seu caso não era simplesmente mais um, muito menos banal. Quem não se sentiu como um sapato velho, dono de um coração pirata que levava tudo pela frente, mas com uma alma que adivinhava o preço que cobrariam da gente? Quem nunca teve seus olhos sorrirem e o coração bater feliz sem saber o porquê? Depois vinha a sensação de, por favor, “não faça nada por mim” de tão estranho que nos sentíamos já que a tal dae Alice não escreveu aquela carta de amor. Ah, a filha da puta! Aqui era nítido que qualquer palavra nada mais era que uma mera espuma ao vento, pronta pra se derreter. Por outro lado, nossos olhares dariam uma festa na hora em que nossos amores chegassem. Quando nem precisávamos que nos dessem motivo pra ir embora, pois mal havíamos chegado, nos sentindo o descobridor dos sete mares, querendo ficar bem à vontade. Provavelmente depois de tamanha entrada triunfal, a saída teve que ser à francesa... E qual homem nunca quis ser rei pra dama largar o valete e ficar com ele? Ah, e os momentos de solidão, de incompreensão, de exceção só porque você usava óculos ou já não tinha mais dedos pra contar de quantos barrancos despencou ou quantas pedras te atiraram ou quantas atirou? Os momentos de juras pra você mesmo de que o outro pode chorar, mas você não vai voltar e nem ele vai te convencer, afinal de contas, você procura por independência e acredita na distância entre vocês. O fato é que não existem receitas, muito menos 50 delas, para aprender a viver como um astronauta de mármore, sem nenhum de nós. Mas não importa o quão diferente, único ou exceção você tenha se sentido. Não importa porque simplesmente sempre haverá muito amor para recomeçar. A cada vez e sempre. Mais uma vez. Como se todo dia fosse um dia de domingo.

Friday, May 21, 2010

Down and out

She was sitting on a high chair, her feet floating in the air, not touching the ground. One elbow on the table, hand supporting her face turned to the sun. Her chewing gum was thankful that she was chewing it careful and slowly. She never wore watches so as not to know for sure how many minutes she spent on her nothingness. How many days would those hours make? Her legs started to get cramps from the floating feet, so she moved them a bit, stretched them forward and came back to the exact same position. The waiter brought her a glass of iced tea. She gave him a half-smile, leaned the whole body forward to place the straw on her lips, instead of reaching out to the glass. A cloud crossed the sun and she realised her sunglasses were, in fact, making no difference since they were falling down on her nose. It didn’t bother her. Others might have even thought it was stilish. Whatever. She sipped her drink until the air in ther straw started making noise. Over. Now what? She decided to head home. Her body was strangely heavy, so she moved slowly, staring at her feet. "I ought to buy new shoes…" She also noticed from her shadow that her left shoulder was inches lower than the right one from the weight of her bag. Turning the key silently on the door, as if not to wake anybody up, she remembered that there was no one home: she lived alone. That thought made her feel even more tired. The only strength she had left was to take off her shirt. Her body was automatically drawn to her bed. She covered her eyes from the light that struggled its way in through the dark-green curtains. “Isn't life  too short to be bored?”, she wondered. Then fell asleep dreaming about all the things she wanted to do.

Thursday, May 20, 2010

Face the truth!

Quem foi mesmo que disse que beleza não importa??? Ah, me dá um tempo com tamanha ladainha. Mentirosiiiiinho, hein?! No meu caso, mentirosiiiiinha... Pq, cara, na boa... não vou torcer pro Brasil mais, não. Já não tenho políticos que me orgulhem a ponto de ser patriota e meu time ainda é cheio de homem feio pra dedéu?! Tenho que achar as coisas "boas" em outro lugar. Com a Copa vindo, decidi mudar de país (mesmo ficando aqui). Como todos sabem, com a idade a gente vai ficando mais seletivo e crica (ou mais sábio pra focar e ficar só no que verdadeiramente interessa?). Seguindo a lógica, aviso e peço licença: tô do lado da Itália desta vez.
E que o abaixo me ajude a justificar minha nova torcida "nos" protegendo dos gols adversários!! Dá-lhe Gigi!!!




HEEEEEELP!!!
Uma leitora assídua me mandou novas fotos para eu add e pensei: "não, vai ficar tosco...", mas quando vi o carinha abaixo, pensei: "ele merece! ele merece!" (por favor, leiam em tom de torcida).
Mas... QUEM É ELE?! Alguém pode me ajudar esta questão? Afinal, preciso ter outra seleção pra torcer, caso a Itália seja eliminada, né...


Tuesday, May 18, 2010

Um viva à má educação

"Respeito é bom e eu gosto".
"Para um bom entendedor, meia palavra basta."

Meus queridos, não se enganem com os ditadinhos acima. Não os interpretem achando que todos os lêem assim. Há quem confunda respeito com educação. Respeito é bom mesmo, mas quando faltam com você, falte com educação de volta. Vá pra puta que pariu quem nunca quis descer a lenha, descascar mesmo e não o fez por e-du-ca-ci-ón. E vá também à merda aqueles que acham que todos entendem mensagens enviadas pela metade. Não, gente. Eles não entendem. Os putos não só não entendem, como pegam a porra da mensagem e a distorcem a seu bel prazer/gosto/à sua conveniência.

Nós, seres educados, temos que soltar o verbo mais vezes, mandar mesmo às favas, a la puta que le parió, al culo ou seja lá mais onde inventarem ou quiserem. Educação demais dá ataque cardíacao. Câncer. Dá nojo. Desgosto. Não deixe teu desgosto virar esgoto dentro de você. Se fizeram por merecer, despeje o esgoto de volta em quem é devido. Não o guarde. A má educação te limpa, te deixa leve. Mas que isso não seja à toa, muito menos rotina, senão o post será distorcido e perderá seu valor. Que não se torne de costume porque senão será sinal claro de que quem está se desrespeitando é você mesmo.

Você verá que atitude tão barata terá um preço tão valioso: o preço de uma alma lavada e de uma noite, finalmente, bem dormida. Ambos não têm preço. Para todas as outras coisas, existe a porra do Mastercard e a má educação.

E pra quem acha que exagerei ou discorda: tente um dia.
Pra quem não entendeu: FODA-SE.



Friday, May 14, 2010

3x Oswaldo Montenegro

- Oi, boa noite.
- B-bo-bo-boa no-o-oiite.
- Você veio me assistir?
- Vi-i-i-im... (trêmula).
- Muito bem-vinda!
- (silêncio sorridente)
- Sozinha? Cadê suas amigas?
- É... hum... olha, me desculpe a franqueza, mas elas não gostam muito das suas músicas, não...
- Entendo. Você realmente me parece muito novinha para conhecer meu repertório. Posso saber sua idade?
- Tenho 16, mas gosto não tem idade.
- (sorrindo) ... tem razão. Espero que meu show te agrade.
- Obrigada! Só esta conversa já valeu o ingresso. (incrédula!)

Já no meio do show...

- Esta eu dedico para aquela que veio sozinha aqui. Não a vejo, mas é pra você, sweet 16.
- É PRA MIM!!! É PRA MIM!!!! (pulando! extasiada! puta por não ter ninguém pra dividir e contar na hora...)
- Coitada... acha que é pra ela... há,há,há.

Sete anos se passam. Outro show.

- Meu amado público, chegou a hora de vocês escolherem a música.
(gritos vindos de todos os lugares)
- Condor!!!
- Intuição!!!
- Aquela coisa toda!!!
- Incompatibilidade...
- Qual? Repete...
- Incompatibilidade (sussurrada do alto do mezzanino)!
- 1, 2, 3!! (começa a batidinha da música) "E bate louco, bate criminosamente / O coração mais do que a mente, bate o pé mais do que o corpo poderia..."
- Aaaaahhhhh, não acredito!!! Não acredito!!! É pra mim!!! É pra mim DE NOVO!!!!!

Dois dias se passam...

- Oi...
- Meu Deus! Você...
- Sim. E você. Que coincidência te encontrar aqui no aeroporto.
- Pra mim, como fã, é mais que isso. É pura alegria e desconcerto.
- Pra mim, digo que é um grande prazer te ver pela terceira vez.


Habits

In life, all is about getting used to things.
Get used to exercising.
Get used to drinking.
To thinking.
To drugs.
To fat food.
To smiling.
To crying.
To caring.
To working.
To worrying.
To understanding.
To sugar.
To wishing.
To hoping.
To wondering.
To fearing.
To complaining.
To waiting.
To buying.
To reading.
To demonstrating.
To manipulating.
To playing.
To trying.
To pretending.
To isolating.
Now close your eyes. Please really do close your eyes and think about the one thing YOU are most used to before reading the rest. Then open them and go down.
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Now imagine this thing is TO LOVE.

666 (in English)

There are those who believe God created the world and all beings. As every rule has its exception, this one tale is the exception of the Almighty's exception. It regards a certain daughter of Satan or as many often reduce him to, just "the Devil". And who would have thought that she was to be his masterpiece?? When the unholy was to be born, the sentence spoken by the one who lives underground was: "Releeeeeaaaaase the Kraken!!". Said and done. The diabolique creature came to the world on 06/06/1666 without crying. Common shock amongst those who were present, but still the doctor declared her a "healthy" child. How could a doctor declare healthy that strange microminiature of a person that, apart from not crying, stared at him and even gave him what seemed to be a smile? Such things not even Freud could explain, just the Beast himself. Due to the horror that ran through the doctor's veins, he rashly made his way out of the house attesting over and over that she was indeed healthy.

The bloody one grew up with her very odd thoughts and manners declared to all, and somehow managed to make and keep (for a short period only, naturally) a small number of friends at school. She even kept her appearances with her family, but deep down she despised them. Her rage towards her mother grew day by day at each failed attempt that the mother to caress or care for her. Out of fear, her father ignored her and, as expected, she felt fervor towards him. She tried to please him at all costs, but since her actions were the most absurd and unsual ones, the father ran from her as she might have run from a cross, had she seen one. Up to current days, I know no father that enjoys dead bats in his office just for decoration's sake nor self-mutilation attempts just to catch his attention.

Moreover the fact of having the Lord of Darkness as a real father and a biological one who loathed her, nothing seems more comprehensible than the infernal feeling disenchanted towards men. However, as customary at the time, she was happily forced by her father to wed. She obediently attended the cerimony with tangled, messed up hair, dark circles around her eyes (that everybody thought to be the normal nervousness that affects all brides) and a bouquet of dead flowers. The groom received her with such a high disdain that the bride even felt a little inclined to the lad. They had four children. At each birth, a burden.

On the day that the fourth son was born, the pupil overcomes her own master and creator by screaming at the top of her lungs: “I shall only be happy when I see 4 little coffins going out that door!!!". Such words were so strong and intense that echoed in most hidden corners of hell. Mad and out of his reasons, with deadly rage and envy, Lucifer himself jumps up from his throne and yells to all levels of the subterranean world: “BRING ME THAT BLOODY COW DOWN HERE NOW!! How dare she!! No one can be more hated than me on Earth!!” The miserable woman died during labour and the youngster was the only one who cried when born.

Wednesday, May 12, 2010

666


Há quem creia que Deus criou o mundo. Como toda regra tem sua exceção, esta é a exceção de Deus, Todo Poderoso. Trata-se de uma filha de Satanás, Besta, Satã ou, mais comumente reduzido a apenas “Diabo”. E não é que ele criou sua obra-prima? Quando do nascimento da desgraçada, a frase dita por aquele que mora lá embaixo foi: “liberem o monstro!!”. Dito e feito. A diabólica nasceu sem chorar. Espanto geral dentro da casa onde nasceu no dia 06/06/1666, mas o médico a declarou saudável. Como pode ter declarado normal alguém que, além de não chorar, encara o bendito médico e o sorri? Coisas que nem mesmo Freud explica, somente ele: Lúcifer. Devido ao pavor percorrido pelas veias do médico, o atestado de saúde foi dado mais por desespero do que por competência.

A maldita foi crescendo com suas esquisitices declaradas, mas conseguia coleguinhas de classe por tempo limitado e até mantinha certa aparência perante a família. Na verdade, os desprezava e seu ódio só aumentava a cada tentativa de carinho e afago por parte da mãe. O pai a ignorava por medo e, por ele, a menina nutria fervor. Tentava agradá-lo a todo custo, mas como suas ações eram as mais descabidas e absurdas, o pai fugia da peste como esta deveria fugir da cruz. Até hoje desconheço pais que gostem de morcegos mortos em seu escritório para enfeitar o ambiente ou tentativas de auto-mutilação para chamar a atenção.

Além de ter como pai verdadeiro o Senhor das Trevas e como biológico um que a desprezava, nada mais normal que a infernal tenha virado uma adulta avessa a homens. Porém, como era de costume em sua época, foi forçada a casar-se (alegremente passada pra frente pelo pai ao se livrar de tamanha coisa bizarra). O fez obedientemente. Compareceu com os cabelos desgranhados, certas olheiras que todos julgaram ser por nervosismo natural de qualquer noiva e um buquê de flores mortas. O noivo a recebeu com desdém e isso atenuou a moça. Tiveram 4 filhos. A cada parto, um fardo.

No dia de nascimento do quarto filho, a pupila supera seu próprio criador ao gritar: “Só vou ser feliz quando vir 4 caixõeszinhos saindo por esta porta!!!!”. De tão fortes, as palavras foram devidamente reverberadas nas profundezas. Puto da vida, com ódio e inveja mortais, Belzebu salta de seu trono e esbraveja pra todos os andares do mundo subterrâneo: “TRAGAM ESTA FILHA DUMA PUTA PRA CÁ AGORA!! Ninguém pode ser mais odiado que eu na Terra!!” A infeliz morreu no parto e o caçula foi o único que chorou ao nascer.

Gasparzinho também anda de táxi...

Duas amigas alegres por natureza e embriagadas por indução de bebidas permitidas para apenas maiores de 18 anos, solicitam táxi após a balada. Entram no carro animadamente cantarolando a última música que escutaram lá dentro: “come on, vogue, let your body move to the music, hey, hey, hey!!”. Parece que mais queriam ter ficado do que ido embora, se levadas em conta as dancinhas coordenadas que faziam no backseat.

Conversando e rindo somente uma com a outra (já que o taxista da vez era mais sério e quieto do que o da ida pra boate – ah, que saudades do Jorge!), avistaram um moço no outro carro que começou a mexer com uma delas. Míope que só ela, perguntou pra amiga: “vale a pena dar tchauzinho???”. Sim, valia! Obedeceu, sorriu, fez charme e acenou. Flerte puro de carro pra carro. A outra só ria e tacava lenha na fogueira. A que flertava sentiu o calor da fogueira que a outra alimentava e levou o assunto a sério no seu subconsciente: virou-se pra mexer com o rapaz e, sem querer, pisou no extintor de incêndio. A cena bonitinha e de flerte passou para uma nuvem gigante branca com a mangueirinha soltando som de cobra “ssssss”. Gritos de susto, misturados com frases surreais do tipo: “aaaiiiii, é assalto!”, “o taxista quer nos raptar, fooooogeeeee, sai do carro!” (gente, por favor, como fugir de um carro em movimento??), “é táxi do Gugu, uma pegadinha!!!”. O taxista permaneceu quieto (seria mudo o rapaz?) mesmo no meio de tanta algazarra e simplesmente encostou o carro com a expressão taciturna intacta (seria botox?).

Eis que descem as alegrinhas do bat-móvel braaaaaanco por dentro. E ela, a bonitinha, braaaaaaanca por fora. Toda vestida de preto, virou um Gasparzinho real life. Só se viam os cílios piscando rapidamente pelo susto e os olhos pretos de jabuticaba por detrás das piscadas. A amiga não se conteve e sentou na calçada de tanto rir. Ficou sem falar e, acredito que até sem respirar, por uns três minutos até recuperar o fôlego e dizer: “Ô, fantasminha camarada, olha pra trás!”. O par de jabuticaba se vira e, pra seu espanto, o gatinho que as seguia estava de pé atrás dela. Ficou imóvel. Vai que ele não a via ali? Estava tão branca que passava por névoa. Morrendo de vergonha, seu rosto entregou sua presença ao adquirir forte rubor. O rapaz sorriu, estendeu a cerveja que tinha na mão e falou: “fantasmas bebem?”. Ela sorriu, mas ele não identificou muito já que o branco dos dentes se misturavam com o branco do pó expelido pelo extintor. Pagaram a corrida e um extra pro taxista da Família Adams e foram embora com o novo motorista pra casa. Até hoje ele a chama de “Fan”, primeira sílaba de “fantasminha” com som de “diversão” em inglês.

Roll the dice


Christopher had always been the “think-not-do” kind of lad. He wondered about this, about that, about all. As silly as it may seem, he even wondered how one would feel hot and just jump in the swimming pool without first trying out the temperature on 2 fingers of water at the corner of the pool. To him, even such little reassurance seemed better than none. There seemed to be a constant stronger arm than his tying him around himself. An endless lump in his throat that blocked the sentences to come out. The lines. The syllables. The words even. One by one, the words would be pushed back down to his stomach because the lump would block their way to his lips and tongues. Persistent tears that no one saw in the back of his eyes (is that where the soul is hidden?). Once again, he wondered… he wondered whether he had finally reached the one place he feared the most: the point of no return.Was he losing the grip? He dreaded that thought, but felt there was a way out... He wanted to be the one to write his own pains and gains. But... how?!? How would he simply let go of thoughts and embrace action? It seemed to be more fear than, in fact, laziness. Then again: fear of what exactly?

After another moment of questioning, Christopher remembered a phrase by Darwin (a fella he most admired): “It’s not the strongest species that survive, nor the most intelligent. But the ones most responsive to CHANGE!” He felt as if he had been struck by a lightening. The sentence fell in his memory as an unexpected gift falls on your lap from something you thought you didn’t even deserve. A rush of blood went straight to his head. His thoughts ceased momentarily: a feeling never previously experienced.

He felt obliged to take that “gift” and use it the best way possible. For him, the only way to honour such a statement of truth would be the obvious: to change. The wheel of life started turning in his head and he suddenly understood expressions such as “roll the dice”, “toss the coins”, “no pain, no gain”… He saw the resemblance in all of them. They are all about the one action that will change the whole scenario. A movement that will affect life in a matter of seconds. You roll the dice and that’s it: you either win or you lose. But you must play. You must roll the dice. Watching life from the first row might give you a good view, but you’ll only see other people’s lives from that spot. You cannot watch your own life. You must live it. If you don't, no one will do it for you. No one can, even if they try to. Free will and destiny are close friends and walk hand in hand: use your free will to make your choices as you wish so you can draw your destiny. You. You must roll the dice and change the swing of things so others can see you from the first row. So they may then applaude you. Cheer for you. Applaude to such a beautiful spectacle, a breathtaking beauty in which you can, but will not hide. A show that strikes the sight of those in the first row and glows in the dark. A show only you may give because that show is yours. And yours only. And you’ll need this for the rest of your life.

Monday, May 10, 2010

Pau a pau

Mulher adora falar. Contar tudo. Tim-tim por tim-tim. Em detalhes. Os sórdidos, então, ah, estes são os melhores! São ouvindo estes benditos detalhes que mulheres conseguem fazer com que outras fiquem quietas. São nestes momentos que algumas fazem pose blasè, outras ficam boquiabertas, umas dão risadinhas, suspiram e algumas soltam gargalhadas que entregam o ouro pra quem está perto, mas não faz parte do cochicho.

Não fugindo à regra, seis amigas se encontraram pra um despretensioso happy hour em plena sexta fim de tarde para fugir do trânsito e, claro, colocar o papo em dia. Não só o papo, como alimentar o corpo com um belo jantar líqüido. Jantar líquido é aquele onde tudo que se come é algo possível de ser engolido sem ser mastigado. Logo... o jantar foi regado a caipirinhas: para duas delas de cachaça e para as outras, de vodka. De saquê ninguém quis porque, apesar de serem todas meninas, pro quesito bebida, as meninas são machos. As frutas em questão eram as vermelhas e as adocicadas lichias que ajudaram a bebida a descer mais rápido pro estômago e a subir mais rápido pras cabeças. O teor da fofoca era diretamente proporcional ao nível de bebedeira. Claro que é aí que entra a parte dos tais detalhes.

É questionado para uma delas como foi a troca de casinhos nos quais a cidadã estava envolvida. Como já explicado, as meninas em questão têm um lado meio yang de ser. A questionada responde: “não quis largar um osso sem antes lamber o outro pra saber se ia gostar do gosto”. Alvoroço na rodinha, acompanhado por uma animada rodada de aplausos!! Uma, mais racional, faz ar de aprovação total e lança a grande sacada na mesa: “Claro. Nada melhor que fazer uma comparação pau a pau.” A prévia excitação das meninas foi subitamente suspensa. A expressão dita há anos foi esclarecida: secamente. Simplesmente assim. Como se nada fosse. As outras da mesa se sentiram iluminadas ao, finalmente, entenderem tal expressão que usavam a torto e à direita. Expressão esta que foi, com certeza a-b-s-o-l-u-t-a, criada por uma mulher.

Fofoca é cultura.
Detalhe sórdido é informação relevante.
Álcool é ferramenta de comunicação.
E pau virou expressão. Expressão de comparação.
E ainda há quem creia que tamanho não é documento... ai, ai.

O casal chatinho

Há casais que se tratam por “amor”, “bem”, “linda/lindo” ou até buscam ajudinha em outro idioma, como “baby” ou “mon cher/ma cherrie”, mas é sempre algo que tenta descrever o carinho sentido. Outros se chamam por apelidinhos que só eles sabem o motivo. E há o casal chatinho: eles não se tratavam por apelido algum, nem por um termo carinhoso. Aliás, dada a cara que se olhavam, era possível pensar que um havia esquecido o nome do outro.

O casal chatinho foi observado durante uma festa de casamento. Todos estavam alegres, sorridentes, comendo, bebendo, alguns até já fazendo novas amizades, vibrando pelo casal amigo que acabara de selar o amor numa união tão bonita, mas eles não. Eles não tinham cara de muita coisa. Tem gente que passa ser de um jeito ou de outro pela expressão que carrega no rosto. O casal chatinho tinha cara de chatinho. Ela, pessoa nova, vestida finamente, com os cabelos presos por presilhas de strass e encharpe da cor do esmalte, não conseguia esconder a expressão sisuda e retida que tinha por detrás da maquiagem bem feita. Ele, bem... ele é algo que até faltam palavras pra definir, pois ele é bem assim: sem nada. Sem sal, sem graça, sem vontade, sem vida. Eles até trocaram palavras com outras pessoas, mas não juntos: ou ele falava e ela comia ou ela falava e ele ficava parado ao seu lado. Isso! Era isso que o rapaz parecia: uma estátua ambulante, uma estátua que mexia os bracinhos.

Foi-se, então, feita uma aposta secreta pelos (mui!) amigos do casal para ver se, ao tentarem embriagar o casal chatinho, a dupla ficaria menos chata. Descobriram que o rapaz gostava de uísque (hummm, já melhorou em uns 10% a chatice dele) e ela, de caipirinha, mas tinha que ser de saquê (melhor ainda, sobe mais rápido). Deu-se a largada dos amigos em direção ao bar ou em busca dos garçons. Bebidas servidas e o casalzinho inocente beberica seus copos como passarinho toma água . Tic-tac, tic-tac, pedem outras. Tic-tac, tic-tac. Os amigos que, naturalmente, bebem mais rápido, começam a ficar embriagados. Tic-tac, tic-tac. Terceira rodada pros chatinhos e a quinta pros amigos. Inicia-se o movimento geral: uns vão pra pista, outros pro lado de fora fugir do calor do salão (mas com copos na mão) e o casal chatinho começa a interagir um com o outro. De repente, alguém avista o casal sorrir e se acariciar. A penúltima cena vista foi o casal chatinho fumando o mesmo cigarrinho, sentadinho grudadinho, falando ao pé do ouvidinho. Casal que é chato, é chato até na hora de ser grude. Os dois não se separaram mais e não interagiram com mais ninguém, nem mesmo com as bebidas que restavam nos copos.

Os amigos tentaram os encontrar para devolver a encharpe perdida no chão e a gravata dele alguns metros adiante com marcas de batom. Se entreolharam com sobrancelhas arqueadas e sorrisos maliciosos de canto de boca e chegaram à conclusão que a última cena do casal chatinho ninguém viu, pois já não estavam mais na festa.

Tuesday, May 4, 2010

Executivo ou Ladrão de Meias: uma saga de indecisão

Um dos meus primeiros contos, mas certamente o primeiro postado.



Era uma vez um jovem muito promissor que ocupava cargo elevado na empresa em que trabalhava. Era um grande Executivo o rapaz. Coisa chique. Sempre muito bem apresentável, com roupas elegantes e um sorriso para quem o cumprimentava, o tal parecia ser benquisto pela sua equipe. Todos o admiravam. Porém, como nem tudo que reluz é ouro, o infeliz guardava um segredo... Como tinha certa aparência pra manter, nunca comentou sobre tal assunto com ninguém. Ninguém podia saber pra não correr o risco de o acharem louco, lelézinho da cuca (sim, esta seria a única conclusão que qualquer um chegaria se soubesse do segredinho).

O fato era que ele gostava de roubar meias. Sim. Meias.
Destas simples do dia-a-dia, sabe? Estas quentinhas pra se usar com bota no inverno ou daquelas pra se trabalhar a qualquer momento. Destas tipo “curinga”: bonita e básica. Qualquer que fosse a meia, o rapaz “zupt!”: passava a mão. Mas não meias zero-bala! As novinhas em folha não eram seu foco, não tinham graça. O legal eram meias usadas. Nem ele sabia o motivo. Se perguntou inúmeras vezes o pq de tal excêntrica mania.

Um dia, se encafifou tanto com a questão que foi às compras. Decidiu dar um fim a tal absurdo. Não era possível que ele, justo ele, pessoa inteligente e capaz não conseguisse encontrar um par de meias sozinho. Procurou, experimentou, não gostou, tentou de novo (algumas meias eram rejeitadas antes mesmo de irem pro pé... só no toque já sabia que não eram boas o suficiente), mas não encontrou nada como as que eram roubadas. Teriam as benditas surrupiadas certo poder sobre seus pés? Preocupou-se em ser realmente um doente, afinal de contas ele não acreditava em papos esotéricos, místicos. Esta coisa de “vibração”, "energia" não era com ele. Coisa de veado isso. De quem não tem mais no que pensar. Ele acreditava era no “concreto”, ou seja, que meias servem para aquecer os pés e pronto. Só isso.

Foi aí que o momento de esplendor máximo surgiu! Depois de muito se questionar e à nenhuma conclusão chegar, mal acreditou que ali jazia a resposta!! Bem à sua frente! Reclinou-se em sua poltrona moderna e confortável e, olhando seus pés esticados à sua frente, lhes sorriu e disse: “um dia, meus caros, um dia, vcs encontrarão o par que querem. Mas enquanto não se decidem, eu vou lhes dando as roubadinhas mesmo!” Deixou a decisão pros pés.

Monday, May 3, 2010

A primeira grande decisão da minha vida

Recapitulando mentalmente algumas fotos da minha infância pra ver até onde eu conseguia me lembrar, percebi que a mais remota deveria ser em torno dos meus 4 anos. Parei nela pq me deu certo "choque". Questionei minha mãe sobre tal episódio que me marcou: "como raios eu te convenci a transformar minhas lindas madeixas Rapunzel num corte que remetia a um pintinho recém-nascido??" Gente, eu era uma meninota, mal sabia o poder de argumentação. Como tal ato foi possível?

Eis que a mamma lança as palavras do "misterioso corte de cabelo" e eu, em grau hipnótico, ouço atentamente, como se o ato de "prestar atenção" me fosse devolver alguma sensação sentida na época ou até fazer-me reviver tal instante.

"A mãe, grande executiva que era, estava sempre muito bem arrumada, unhas feitas, cabelo da moda, saltos-agulha altíssimos e etc... Juju sempre admirava esta imagem e dizia que queria ser como ela. Até aí, fora ter perdido inúmeros pares de sapato por conta de saltos quebrados pela Juju, a mãe só sorria pela admiração nutrida pela filhota. (Mãe e filha mal sabiam que tal sentimento seria usado como a isca perfeita para solucionar o problema da menina num futuro próximo...) Até que um dia a admiração pareceu ser mais séria, devido ao olhar da menina pra mãe, quando soltou a frase: "quero meu cabelo igual ao teu." Assim. Seca e decidida. A mãe olhou pra ela e sorriu, dizendo que o cabelo da filha era muito mais bonito, comprido como era, cacheado nas pontas, lisos, sedosos e brilhosos... A filha encasquetou. A mãe estranhou o comportamento da menina que era sempre tão boazinha e calma. Tentou dissuadi-la mais uma vez. Nada. A pequena permanecia firme e, até certo ponto, surda aos argumentos da mãe. "Ok, vc venceu, batata frita"... Yuuppiiieeee, lá se vão as 2 para o cabelereiro da mãe. Desde aquela época, corte de cabelo bom mesmo era feito por biba. A bicha se comove ao escutar o pedido da menina: "não!!! por Deus não! não corto este cabelo feito diretamente por Afrodite de jeito nenhum!!" Tentam enganar a pequena com cortes mínimos, diminuindo o tamanho da peruca de dedinho em dedinho. Até que a menina se enfezou e lançou um "IGUAL AO DA MAMÃE!!!!". Após os olhares trocados (questionamento e sofrimento por parte do Zezé e decisão por parte da mãe), a tesoura faz seu tsic-tsic-tsic e a menina se olha no espelho. GLÓRIA!!! Estava igualzinho ao da mãe. Sorriu. Inclinou-se pra frente, ainda se olhando, semi-cerrou os olhos e, pelo sorriso de canto da boca, falou: "Pronto! Agora vc não vai mais puxar o meu cabelo!". Susto geral no salão com pequenos suspiros vindos até das manicures. A mãe a questiona: "O quêêê??? Quem puxa teu cabelo?" A menina desabafa, tardiamente, que era sua professora do jardim de infância."

Gente! Olha que vaca!!! Um professora que puxava o cabelo da menina de 4 anos! Lembro-me bem de um puxão específico - que deve ter sido o que gerou a tal decisão de cortar o cabelo. Fomos direto pra escola e a diretora mandou tamanha fdp embora. Agora, o mais legal que minha mãe contou e que eu não me lembraria jamais de ter assumido isso foi: quando a diretora perguntou se eu sabia pq diabos a vaca puxava minhas lindas madeixas, eu falei: "pq, às vezes, eu sou meio devagar". Hahahaha!! Desde então Juju deveria dar uma voltas no mundo da lua... Interessante ver que eu me sentia uma retardatária para assuntos acadêmicos, mas consegui ir direto à raiz do problema e resolver a questão das puxadas com certa astúcia.  "É o cabelo que a permite me maltratar? Tua desgraçada dos infernos, agora não tem mais!" Humpf!!

Se esta foi a grande primeira decisão da minha vida, imaginem o naipe das que se seguiram...